20 anos depois
O blog Previously on LOST está de volta!

We have to go back!
20 anos depois, cá estou eu, um blogueiro de Lost, da época em que a série estava no ar, revivendo um blog bastante lido naqueles tempos.
A pergunta é: por quê?
Na verdade, minha história se entrelaça com Lost de uma forma diferente da maioria, e, ao contrário dos outros blogueiros da série, sempre tive vontade de manter um espaço vivo sobre o assunto, que não saísse do ar.
Mas me questionava: será que vale a pena? Será que haverá público?
Eis que, 20 anos depois, anunciam Getting Lost, um documentário independente, dirigido e coproduzido por Taylor Morden, fazendo uma revisita à série, narrando o desenvolvimento e o impacto cultural de Lost. O burburinho está interessante, e incluem-se inclusive entrevistas com atores e equipe. A estreia do filme, incluindo perguntas e respostas, aconteceu em 30 de novembro de 2025, em uma exibição no The Frida Cinema, Califórnia, e a estreia mundial virtual com perguntas e respostas ao vivo saiu dia 7 de dezembro de 2025, com streamings listados no próprio link do início deste parágrafo.

O site que condensa as informações sobre o documentário é (novamente) este aqui, mas somente recomendo que se aprofunde se já tiver assistido à série, porque, caso não tenha assistido e pretenda, certamente será bombardeado com spoilers que vão estragar sua experiência.
Ok, ok, dá para assistir ao trailer, que está bem na página principal do site, sem se preocupar muito, mas não vá além disto.
Adicionalmente, depois de um bom tempo, a Netflix relançou as seis temporadas de Lost em seu catálogo, e, pasmem, mesmo depois de todo esse tempo, a série ficou no Top 10 por algumas semanas! Não é para qualquer uma! Já saiu novamente do catálogo, e agora está disponível na Disney+.

Devo dizer que não me surpreendeu esse boom mesmo 20 anos depois. Quem conheceu ou compreende o tamanho de Lost sabe que, provavelmente, nunca será uma série comum, muito menos esquecida ou deixada de lado.
Zeitgeist é um termo alemão que significa “espírito do tempo” ou “sinal dos tempos, e se refere a um conjunto de ideias, crenças, comportamentos e influências que caracterizam uma determinada época. Lost representa uma espécie de zeitgeist televisivo do início dos anos 2000. Vou explicar o porquê, e vou introduzir você no universo que este blog traz de volta agora.
Como era o processo de assistir e blogar Lost?
O piloto de Lost foi ao ar no dia 22 de setembro de 2004, e seu encerramento aconteceu no dia 23 de maio de 2010. Foi um total de 121 episódios em seis temporadas. Os criadores: Carlton Cuse e Damon Lindelof. O segundo esteve presente desde o início e teve a ajuda, para o episódio inicial, de Jeffrey Lieber e do grande J.J. Abrams.
Não havia streamings, não havia smartphones, não havia uma internet tão veloz que permitisse assistir online. O máximo que tínhamos em termos de vídeo nas redes era o Youtube, e com qualidade bem humilde. As séries eram transmitidas na TV aberta mesmo. No caso de Lost, na americana ABC, e um bom tempo depois vinha para a Rede Globo, no finzão das noites.
Para ter a experiência de acompanhar em tempo real, sem período de espera, o recurso era a pirataria. Não tinha outro jeito. O pessoal assistia na emissora americana, legendava em português (em qualidade superior à da legenda oficial) e disponibilizava na mesma madrugada. Ou seja, dava pra baixar e assistir com algumas horas de atraso. No meu caso, como eu trabalhava durante o dia, minha sessão ficava para a noite seguinte. Os episódios iam ao ar nas quartas-feiras e eu assistia na noite da quinta-feira. Naquele momento, trancava o portão, abria uma cerveja e, de verdade, não importasse quem batesse à porta, eu não estava lá 😄.
Comecei a assistir de forma bem atrasada. Demorei a dar uma chance. Já era quarta temporada. Fui fisgado como a maior parte do planeta, maratonei os episódios, alcancei todo mundo, e me acabava nas buscas por respostas para tantos mistérios fascinantes que nos eram apresentados. Acessava blogs, fóruns e todo tipo de espaço na internet da época. Uma internet que era só um pedacinho dessa que temos hoje.
Comentava, deixava minhas próprias teorias nos posts dos blogs mais famosos… Eis que um dia, o autor de um desses blogs se apropriou de uma dessas teorias que deixei ali e a apresentou como se fosse dele. Não gostei e lancei meu próprio blog, que chegou a ser o terceiro mais lido do país em quatro meses.

Era uma aventura! Na quinta-feira à noite, assistia ao episódio da semana no modo espectador, só curtindo sem interrupções. Logo que terminava, assistia de novo, agora com olhar de blogueiro, tomando nota, pausando, pensando, conjecturando, refletindo, fazendo ligações com outros episódios, buscando respostas para os mistérios, analisando o perfil dos personagens, visitando a descrição oficial do episódio pela ABC, buscando fofocas, notícias e outras publicações que pudessem entregar pistas, para juntar tudo em um emaranhado de informações que trariam o melhor entendimento possível daquele episódio e da trama até ali.
Na sexta-feira, em horário de almoço, assistia uma terceira vez, depois daquele meio dia assimilando tudo, para ver se não tinha deixado nada passar e fazendo ajustes nos pensamentos. E por fim, na sexta-feira à noite, escrevia o post do meu blog.
Nos dias seguintes, respondia aos diversos comentários, pesquisava mais… Enfim, meu entretenimento era assistir, pensar e blogar Lost.
O mundo foi tomado por Lost, mas eu fui mais. Isso aconteceu, além do tamanho da paixão, pelo fato de eu estar passando por um período difícil, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, e minha autoestima estava bem comprometida. E, conforme o blog ganhava força, aquilo me trouxe um ânimo que eu não experimentava há muito tempo. Isso se refletiu em todas as áreas da minha vida, e fui encontrando forças e formas de fazê-la melhorar em todos os aspectos.
Por isso, costumo dizer que Lost me salvou. E também por isso, coloquei tanto de mim naquele blog, o mesmo que estou revivendo agora. O mesmo que você está acessando agora.
O que Lost significou para as séries e o universo televisivo?
Não sei sua idade. Não sei desde quando acompanha séries e o universo televisivo. Mas lá, no passado, as coisas eram diferentes do que são hoje.
As séries, de forma geral, tinham um orçamento modesto, ocupavam um posto de segundo panteão bem abaixo dos filmes, e seguiam uma estrutura de aventura isolada da semana. Você assistia a um episódio em que a trama iniciava e terminava ali. De forma resumida, se os episódios fossem trocados de ordem, não faria nenhuma diferença, porque não existia uma trama única e contínua. E o pior é que essa troca acontecia, de fato. Era bem comum que nossas emissoras comprassem somente parte das séries, exibissem seus episódios fora de ordem e nunca transmitissem seu final. Tudo isso vale tanto para séries quanto para desenhos animados. Se você tem idade suficiente para lembrar de Cavalo de Fogo, fique sabendo que foram produzidos somente 13 episódios.

Exato! Tudo que você já assistiu (se assistiu) de Cavalo de Fogo foi composto por somente 13 episódios.
E quando a série tinha uma quantidade maior de episódios, era comum não ter final. Sério! Se você tem mais de 30 anos, tente se lembrar do final das séries americanas que assistia quando era criança. E sabe o que é mais interessante? Não sentíamos falta do final, justamente por causa da estrutura de aventura semanal de que comentei. Como não havia uma trama contínua, que caracterizasse uma história única, a cada final de episódio ficava a sensação de problema resolvido.
Por que faziam isso?
Porque, para eles, era simplesmente inconcebível encerrar uma série que estava dando lucro. E, quando parava de dar lucro, cancelavam sem um final. Simples assim.
E os personagens?
Considerando uma série qualquer, se você assistisse ao primeiro ou ao 130º episódio, não saberia qual é qual, porque a aventura da semana seria iniciada e terminada ali, e porque o protagonista não apresentaria absolutamente nenhuma diferença. Nem evolução, nem involução. Não havia desenvolvimento de personagens. Era aquela coisa insípida, congelada.
A gente gostava. Mas era porque não havia nada de mais elaborado.
Eis que surge Lost!
No dia 22 de setembro de 2004, estreava Lost.

Pra começar, o piloto (que é como os episódios iniciais de série são chamados por lá) foi o mais caro da história até ali. Filmado no Havaí e com um elenco enorme, custou entre US$ 10 e 14 milhões, um absurdo para a época. É mais ou menos metade do custo atual de produção de um episódio da quarta temporada de Stranger Things, e sabemos que Stranger Things é um ótimo exemplo de altíssimo investimento. Lloyd Braun foi demitido pelos executivos da Disney, dona da ABC, por ter aprovado um projeto tão caro e arriscado.
Só que bombou! Bateu recordes de audiência e foi nada menos que o vencedor do Emmy em sua primeira temporada como melhor série dramática, assim como J. J. Abrams ganhou por dirigir o episódio piloto. Os caras inventaram um tesouro que mudaria a forma de produzir séries para sempre!
Sim! Pode-se dizer que o universo da TV e das séries é dividido em antes e depois de Lost.
Lost inventou a narrativa serializada de ficção. Adeus aos episódios da semana e seja bem-vinda a narrativa que emenda um episódio ao outro em uma trama única e contínua. Foi com Lost que isso se criou. E como você deve imaginar, todo mundo copiou depois.
E os orçamentos mais altos? E a melhor qualidade das séries até alcançarem o patamar de hoje? E as temporadas mais curtas e sem tanta enrolação? E a exigência de se pensar, raciocinar, refletir, e não somente ser exposto como uma esponja ao que era exibido? E as tramas inteligentes que incitam toda uma discussão acalorada e contínua? E a ideia de misturar a TV com a internet? Pensou em Netflix e similares?
Exato! Tudo isso nasceu com Lost. Foi ali que aconteceu pela primeira vez.
Assistíamos a um Jack Sheppard, a uma Kate Austen, a um James Ford, entre tantos outros, que evoluíam, que eram desenvolvidos, que eram influenciados pelos acontecimentos, que tinham seus altos e baixos, que ora eram amados, ora odiados, que pareciam humanos, que pareciam gente! Não existe personagem infalível em Lost. Não é uma história em que se percebem facilmente mocinhos e bandidos, como nas histórias anteriores. São personagens com conflitos, com assuntos internos a resolver. E… Que poderiam morrer a qualquer momento, porque, sim, com Lost, veio a onda de impressionar com a morte de personagens queridos. Uma boa quantidade deles!
Isso é importante: pela primeira vez, vimos uma série que era também “sobre personagens”. Palavras dos criadores. Foi ultrapassado o formato de historinha sem sentimento. E isso reverberou no universo das séries a partir dali. E reverberou até mesmo em outras mídias. Vamos falar disso mais adiante.
Damon Lindelof, um dos criadores da série, deu uma declaração dizendo que Lost teria sido planejada para apenas três temporadas, e com somente uns 17 episódios cada.
Os executivos da ABC diziam: não! Eles não compreendiam por que os criadores queriam terminar assim, tão cedo, uma série que fazia sucesso.
Mas Carlton e Damon desejavam realmente entregar o melhor, e ficar estendendo indefinidamente a história não condizia com essa intenção.
Lost fazia um sucesso tão estrondoso que os criadores, pela primeira vez na história da TV, tinham o poder de dar as cartas. Pelo menos até certo ponto.

Os executivos disseram que “ok, bora fechar em 10 temporadas”… Os criadores disseram que não! Tinha que ser menos! História sem enrolação. Já haviam inserido fillers (nome dado a episódios ou trechos que funcionam como enchimentos para literalmente enrolar e esticar uma história) nas três primeiras temporadas, e não o queriam fazer mais. E, como eles estavam com moral, tamanho sucesso daquilo que entregavam, conseguiram bater o martelo para seis temporadas, com as últimas três sendo reduzidas de 23 para 16 ou 17 episódios cada. Eles poderiam planejar e entregar um final digno.
Um feito! Peitaram os engravatados e simplesmente conseguiram!
E uma vez que os espectadores viram algo com aquele nível de qualidade (sério! Volte e leia de novo tudo que eu disse nestes últimos 14 parágrafos), nunca mais se contentariam com algo como era feito antes, e o universo das séries mudaria para sempre!
Se hoje as séries podem planejar seu final, foi graças a Lost.
Se hoje as séries podem caminhar por trajetos diferentões, foi graças a Lost.
Se hoje personagens se desenvolvem e tramas são elaboradas e inteligentes, foi graças a Lost.
Se os streamings estão no nível em que estão, foi graças a Lost.
Sobre esta última, lembra do que eu disse sobre Lost ser pioneira, entre tantas outras coisas, ao misturar TV e internet?
Pois é… Você pode se perguntar como isso foi feito em uma época em que não existiam streamings.
Bora explicar.
Para além da tela da TV

Foi bem rápido até os produtores e a emissora perceberem o movimento totalmente atípico em torno de Lost. Se antes os blogs e fóruns eram focados na TV e no cinema em geral, passaram a pipocar espaços focados unicamente na série. A internet se mobilizou por si. Os mistérios envolviam organizações, temas científicos, assuntos místicos e fatos históricos que incentivaram a busca por conhecimento e informações a fim de se compreender e encontrar eventuais respostas. As teorias nasciam na velocidade da luz por toda a rede, que ainda era dominada por texto, no máximo alguns podcasts em áudio (estava nascendo o período de ascensão dos vídeos, e isso também foi explorado, conforme ainda vou contar adiante).
Então, eles aproveitaram esse movimento gigantesco para entrar na “brincadeira”, e expandiram o universo da ilha para além da série, estendendo a atenção até depois do fim de cada temporada, preenchendo o intervalo entre elas e mantendo o fervor aceso. Era uma experiência imersiva que seguia mobilizando os fãs de uma maneira totalmente nova.
Tentando incorrer minimamente em spoilers, olha só um pouco do que fizeram:
- Criaram um site institucional para a Oceanic Airlines, a companhia aérea do avião que caiu na ilha com os personagens, contendo pistas e informações que tornaram a experiência de investigação crível e intensa;
- Entre as temporadas 2 e 3, desenvolveram um site para The Hanso Foundation, uma fundação financiadora da Iniciativa DHARMA, que aparece na série. O site mudava constantemente, revelando vídeos (mesmo com a baixa qualidade que a época permitia) e documentos secretos. Com isso, as pessoas visitavam e revisitavam, porque a qualquer momento poderia haver algo novo por lá. Não eram materiais explicativos, mas vídeos e documentos criados como parte do enredo, com estética antiga, como se fossem arquivos sigilosos da própria organização;
- Antes da temporada 4, criaram também um site chamado Find 815 (da imagem pouco acima), que transformava os visitantes em parte da equipe investigadora do desaparecimento do voo que caiu na ilha. No meio de tudo que era retornado, havia interação com e-mails e arquivos de voz que simulavam ser parte da própria história;
- Em certo momento (essa foi fantástica), abriram inscrições para os espectadores fazerem parte (de forma fictícia, claro) da própria Iniciativa DHARMA. Era o DharmaWantsYou.com. O visitante executava tarefas e realizava testes online. A cada semana, era lançado um novo teste. O que dominava em termos de interatividade em sites era o Macromedia Flash, e com isso os testes eram ricos em multimídia sem vídeo. Na Comic-Con (evento anual de cultura pop) daquele ano, foram distribuídas aos fãs credenciais físicas que se conectariam ao site. No final, cada participante que conseguiu ser selecionado recebeu sua identificação com a função que mais lhe encaixava dentro da Iniciativa. Havia desde os felizes por serem qualificados para cargos mais seletos até os frustrados por serem meros auxiliares de serviços gerais;

- Havia uma “hacker” chamada Persephone, que interagia diretamente com fãs dentro dos sites, como se fosse uma invasora dos servidores da série vazando informações e buscando “ajuda” para decifrar códigos;
- Nos intervalos comerciais da série, mensagens “subliminares” contendo URLs piscavam rapidamente na tela, direcionando milhões de telespectadores para os sites da internet, criando uma ponte direta entre a TV e o computador;
- Entre as temporadas 3 e 4, lançaram os mobisódios (chamados oficialmente de Lost: Missing Pieces, ou, Peças que Faltam, em português). Foram 13 miniepisódios de um a quatro minutos, produzidos pela mesma equipe e com o mesmo elenco da série, mostrando cenas inéditas que aconteciam em momentos das três primeiras temporadas. Eram canônicos, e foram concebidos inicialmente para serem assistidos em celulares (daí o termo “mobisódio” = mobile + episódio) da operadora Verizon, mas também foram disponibilizados no site da ABC. Foi próximo à época do lançamento do primeiro iPhone, e já existiam algumas telinhas mais elaboradas, embora o acesso à internet ainda fosse quase totalmente feito em computadores. Em algum momento futuro, venho falar mais sobre eles;
- A Lost Experience, um inovador jogo de realidade alternativa (ARG) desenvolvido entre as temporadas 2 e 3, que envolveu também sites falsos, comerciais de TV, jornais e telefones (sim. As pessoas telefonavam de verdade), por meio de uma parceria com a agência Hi-ReS!. O público era convidado a participar, acompanhando a personagem Rachel Blake em sua busca para revelar a verdade sobre a Fundação Hanso e seu criador, Alvar Hanso, além de aprofundar a história da Iniciativa Dharma. Na Comic-Con, ela apareceu do nada interagindo com os criadores da série como sendo sua personagem. Tudo Em Lost Experience era canônico, e no Reino Unido houve o incentivo a buscas por pistas deixadas em ambiente externo. Algo como Pokémon GO, mas sem smartphones. Mais de 50 mil pessoas participaram! Também vou falar mais sobre ela no futuro.

Houve mais, mas até aqui já dá pra você sentir um pouquinho da boa bagunça que aconteceu na época. Sem contar a forma como o universo de Lost extrapolou a própria série. Teve HQ do Wolverine utilizando a narrativa de flashback, mochilas da Oceanic Airlines nas HQs da Marvel, referências leves a título de easter eggs diversas em HQs da Marvel e da DC, a réplica de uma escotilha da série no jogo GTA V, aparições de marcas em outras produções televisivas, games diversos online, livros abordando a perspectiva de personagens não centrais, etc.
Atualmente, é bastante difícil encontrar essas imagens, mas garimpando com afinco, consegui trazer algumas só para você ter uma ideia. São prints de HQs e outras produções que fazem algum tipo de referência a Lost. Nada importante para o enredo, claro, mas a título de homenagem mesmo, e dada a dificuldade em encontrar, algumas não estão com a maior resolução possível. Por fim, não vou garantir que uma ou duas não possam ser coincidências, mas a grande maioria, se não todas, foi proposital. Clique nas imagens para ver ampliada e saber um pouco mais.
Créditos são importantes. Se clicar aqui, listo as fontes de onde vieram as imagens. Mas tome cuidado porque cada link pode conter spoilers!
• DC Fandom
• Blog Find 815 (1)
• Blog Find 815 (2)
• Fictional Companies Wiki
• Lostpedia (1)references_to_Lost/Comics
• Lostpedia (2)
• Canal Gameplayrj, no Youtube
Existem muitas mais. Aconteceu em inúmeras produções escritas, em HQs, em outras séries, etc. Algumas nem podem ser citadas porque reproduziam cenas com o elenco oficial de forma sutil dentro de outras produções televisivas, e se fosse mostrado aqui… Spoiler dos brabos! Enfim… Ficou tão popular que muitos universitários até focaram o tema dos seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) em Lost. Se procurar no Google por TCC sobre Lost, você ainda encontra vários.
Sabe quando a Marvel criou, com o MCU, uma infinidade de novos amantes do universo de herói que não vinham das HQs? Lost fez isso com as séries. Inúmeros novos seriadores se formaram, e isso também faz parte do movimento que impactou e ampliou a produção e o investimento em séries de TV para sempre.
Mas talvez você pense que a série só se sustentou em iniciativas externas a ela própria, o que não foi o caso. A história era densa. A lore era fantástica. Mesmo assistindo somente aos episódios, é algo diferente de tudo.
Mitologia e a estrutura narrativa revolucionárias
Nunca se tratou apenas de acontecimentos. O enredo trouxe uma pegada filosófica e um foco totalmente novo nos personagens. Temáticas como Homem de Ciência x Homem de Fé, destino x livre arbítrio e a dualidade entre o bem e o mal, assim como a relatividade nos próprios conceitos de bem e mal, eram constantes. Você não torcia invariavelmente por um protagonista, mas tomava partido de um ou de outro. Se identificava com eles, porque a história focava em seu desenvolvimento. Havia grupos que se posicionavam, e legiões de fãs de personagens específicos, às vezes que nem faziam parte do grupo central. Tudo isso era algo que não acontecia antes.
Muitos nomes de personagens eram baseados em figuras históricas. John Locke baseado no filósofo inglês, Desmond Hume vindo do filósofo escocês David Hume, Danielle Rousseau do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, Daniel Faraday em homenagem ao cientista britânico Michael Faraday, Richard Alpert com o mesmo nome de nascimento do psicólogo e espiritualista americano Ram Dass, Kate Austen em referência ao filósofo jurídico John Austin, e por aí vai.
Os episódios eram recheados de easter eggs, referências ocultas ou camufladas, simbólicas e frequentemente misteriosas, inseridas para sugerir teorias ou como entretenimento. O mais famoso foi, sem dúvidas, a sequência numérica 4, 8, 15, 16, 23, 42 (naturalmente, não vou dizer do que se trata, e sugiro fortemente que não procure nada sobre o assunto antes de assistir), mas todos os episódios têm vários.

E, claro, o advento dos flashbacks. Se hoje é comum apresentar flashes de momentos passados de personagens em séries e histórias em geral, foi Lost que popularizou. Toda a narrativa, em absolutamente todos os episódios, alternam entre presente e passado, mas de uma forma tão bem feita que virou referência. Não vou falar mais sobre isso porque, se o fizer, vou fatalmente recair em spoilers.
Com o estrondoso sucesso da primeira temporada, as seguintes tiveram episódios finais mais longos. Às vezes, eram anunciados como dois episódios em um só, com dois títulos separados, mas tudo exibido em um único programa. Eram extremamente esperados, e o mundo simplesmente parava. A construção em torno dos mistérios e as surpresas que faziam o espectador levantar do sofá ou da cadeira garantiam isso.
E garantiram também um conjunto impressionante de prêmios. Entre Emmys, Globos de Ouro, Screen Actors Guild, BAFTA e premiações por atuação, foram inúmeros reconhecimentos durante todo o percurso da série.
Naturalmente, problemas existiram, mas nada que ofuscasse o tremendo e único sucesso que representava.
O desenvolvimento e o final
Como qualquer produção, Lost teve seus problemas, sim. Como já mencionei, por causa de herdar (e transcender) o modelo histórico de se fazer séries, ela foi inicialmente levada pelos mesmos caminhos. Precisavam se preparar para um eventual cancelamento e ao mesmo tempo para uma quantidade imensa de potenciais temporadas com também grandes quantidades de episódios.
Com isso, havia fillers. Tudo bem que, na maioria dos casos, nem se percebia que eram fillers. Mas havia. E houve a inserção de cenas que preparavam um final caso viesse o cancelamento logo no início, prática que era comum mas que gerou um pouco de confusão depois, visto que algumas cenas existiam para antecipar a eventual trama de encerramento logo na primeira temporada e que precisaram ser ressignificadas ou até esquecidas quando a série virou sucesso.
No meio da produção da 4ª temporada, enfrentaram uma severa greve de roteiristas, e precisaram trabalhar às pressas depois disso. O grande elenco a fez suscetível a quebras de contrato e a conflitos de agenda. Como qualquer produção, falhas aconteciam. Mas ali mesmo, na 4ª temporada, Carlton e Damon já davam as cartas, culminando com a marcação da data para o final com seis temporadas e a menor quantidade de episódios, como eles queriam e diferente de como as séries eram feitas na época. O capricho com a produção foi aumentando, a trilha sonora ficava cada vez mais bela e bem montada, e terminaram como e quando desejaram.

Aqui, há de se pontuar que o final foi disruptivo, tanto em enredo quanto em aceitação. Um grande final que dividiu o mundo ao meio. Há quem tenha amado, há quem tenha detestado, há quem considere que foi o ideal embora ficando em choque… Neste blog, tem um artigo que fala somente sobre o final, mas que não deve, de jeito nenhum, ser lido por quem ainda não assistiu à série ou ao próprio final. Nem vou colocar um link aqui, pra não incentivar o clique curioso. Ler antes vai estragar a experiência. Agora, se já viu, então vale a pena procurá-lo.
Você vai encontrar, pela internet, uma quantidade inimaginável de publicações defendendo ou atacando o final de Lost, e tentando identificar o motivo de ser bom ou de ser ruim (a depender da opinião de quem escreve), mas o fato é que a nota 9.1 está lá, no IMDb, para atestar a qualidade (também não vou incluir link porque na página tem fotos que revelam spoilers). Então, por que houve manifestações tão fervorosas em ataque a esse final? E aqui, vou falar com a autoridade de quem acompanhou, reviu várias vezes e analisou o comportamento do público por anos:
A grande questão foi a expectativa.
Lost ficou tão famosa, tão popular e tomou tanto espaço na cabeça do público ao redor do mundo, que cada pessoa desenvolvia com um entusiasmo gigante suas próprias teorias para o final. Aí, quando o final entregou o que ele é, de fato, algo diferente de quase todas as teorias, grande parte dessas pessoas se frustrou. E eis um grande problema entre públicos de forma geral: justamente a expectativa, que chega a níveis doentios e estraga a experiência de quem a carrega.
Claro, há quem não tenha gostado legitimamente, mas a forma como a percepção sobre o final envelheceu demonstra que o hate foi equivocado. E há, ainda, os que simplesmente não entenderam. E não estou sendo pretencioso ou elitista. Conversando online com grupos e presencialmente com diversas pessoas, percebi que várias realmente não entenderam um aspecto do final, e julgaram com base nisso. Depois de entenderem aquilo que era até meio óbvio, via até o olhar dessas pessoas mudarem instantaneamente. Não posso dissertar sobre esse aspecto que gerou o desentendimento, porque seria o spoiler dos spoilers, mas posso dizer uma coisa, uma única coisa que você já deve tomar como verdade incontestável:
Eles não estão mortos, e a ilha não é um purgatório!
Eis a teoria das teorias, que estou derrubando desde já. Tudo bem… Se houvesse a chance de você desenvolvê-la espontaneamente na sua cabeça em algum momento, posso ter te privado de umas boas horas de deliciosas viagens sozinho ou sozinha com suas próprias conjecturas. Mas penso que esse único spoiler (se é que se pode chamar assim) vale a pena, porque já adianta a certeza de que você não vai se frustrar por uma hipótese que não se confirma. E só soltei essa informação agora porque existem inclusive sites e blogs que atacam o final com base nessa teoria furada.
Importante (eu já disse isso e vou continuar dizendo): não busque informações sobre o final e sobre a série antes de assistir. Sua experiência será muito, muito melhor assim.
Enfim… Lost foi um acontecimento único, que nunca se repetiu. Por mais que a opinião de cada indivíduo seja só sua sobre as melhores e maiores produções, Lost tem um lugar que é só dela, e espero ter conseguido passar um pouco disso neste extenso texto. Até mesmo os blogueiros que eram haters na época se perguntavam: “como será o mundo depois de Lost?”
E já respondo: criou-se, por uns bons anos, uma cultura de buscar séries substitutas, porque o mundo ficou órfão. Fringe é um ótimo exemplo de série que tentou cobrir esse espaço. Naturalmente, nenhuma conseguiu, mas algumas alcançaram um carinho muito relevante pelo público, e o processo culminou com toda a mudança que descrevi na indústria da TV.
O legado de Lost é inquestionável e segue inigualado até hoje.
Este blog vem reviver um pouco disso, e vai trilhar um caminho orgânico pelos episódios, como se a série estivesse acontecendo agora. A ideia é entregar, resguardadas as proporções e respeitadas as possibilidades, uma experiência que se aproxime do que foi viver Lost na época em que foi lançada. Sempre que puder, vou reassistir (mais uma vez) cada episódio e trazer sua análise, exatamente como fazia na época. Os mistérios serão revelados conforme essas análises forem publicadas, de forma que você possa acompanhar uma a uma, descobrindo tudo sobre a série de forma gradativa, tal qual acontecia há 20 anos.
Eu convido você!
Venha nesta aventura, e além de tudo que eu já disse para te preparar para ela, fica uma última recomendação: não se esqueça, em momento algum, de que é uma série sobre pessoas. É uma série de mistério, sim, e acompanhá-los é fantástico. Mas é, também, uma série sobre pessoas.
Sugiro que comece por aqui e por aqui. São dois dos primeiros textos do blog, que dizem, respectivamente, como acompanhar este blog sem prejudicar sua experiência com a série e como seus mistérios serão tratados. Tem, ainda, um terceiro texto que retoma o início deste mesmo blog lá no passado, e a apresentação oficial do Previously on Lost, que explica um pouco melhor como funcionarão as postagens e como vai ser nossa aventura juntos. Você vai perceber que repito alguns poucos pontos entre um texto e outro, mas valerá a pena.
Seja muito bem-vinda, seja muito bem-vindo. Aqui, você definitivamente vai encontrar o conteúdo mais profundo e completo, em termos de experiência imersiva e para além de mera informação, sobre a melhor série de todos os tempos.

Andre Daiki
Alguém que tentou contribuir para o entendimento e uma boa experiência com Lost no passado e que quer manter um pouquinho dessa fantástica série viva.

















